História 2
Este foi meu último dia… esta foi minha última decisão. Abri esforçadamente os olhos, vendo o chão manchado do meu sangue. Ouvi um riso e levantei o olhar, apenas conseguindo ver uns sapatos pretos de marca. “Ele” abaixou-se de modo a que nossos olhos se encontrassem e sorriu-me maldosamente. Queria conseguir dizer algo, mas nem a boca conseguia mexer de tanta dor. Sentia o meu sangue quente a escorrer-me pela boca também e engasguei-me. O seu riso fez-se ouvir com mais intensidade.
-Aproveita agora para te lamentares por não teres tomado a decisão certa. Vais ser morta pela pessoa que tanto protegeste e amas-te!
Abaixei o meu olhar e lágrimas escaparam-me dos olhos, começando a escorrer lentamente e encontrei-o com o meu olhar. Ele me olhava com um olhar assassino e nem sorria. Sua postura rígida me fazia doer o coração. De repente ele me sorriu, fazendo-me recordar de tudo o que acontecera agora.
-Se te quiseres juntar ao nosso clã tens de mostrá-lo que queres mesmo. – disse-me Artur.
-E como faço isso, vossa senhoria? – perguntei.
Ele me sorriu e num sinal, mandou entrar alguém. Meus instintos aguçados de vampira recém-nascida identificou logo quem entrara. Nem conseguia acreditar. Tinha que confirmar.
Dei meia volta e deparei-me com José. Ele vinha com um olhar de confusão, e rodeado de mais vampiros adultos.
-O que ele faz aqui? – perguntei aflita. Não queria que ele me visse assim… num corpo de “monstro”.
- Elizabette? – chamou-me ele, num tom de voz como não querendo acreditar que era eu.
Ignorei-o, mantendo meu olhar fixo nos olhos de Artur, que me olhava vitorioso.
-Vais ter que o provar. Tens que o matar, se quiseres entrar mesmo no nosso clã. Aqui não se aceita qualquer um.
“Não. Eu não posso matar o rapaz que amo.”
-Não vou fazer isso. – disse.
Ele tirou algo do bolso e atirou-mo. Apanhei-o. Era uma pequena pistola, carregada apenas com uma bala.
-Mata-o. - Ordenou ele.
Eles puseram José ao meu lado, parado. Virei-me para ele, com uma enorme vontade de chorar. Ele me olhava agora apavorado, mas ao mesmo tempo com aquela essência que me sempre me dava num olhar. Levantei a arma e apontei-lhe.
“Vampiros não podem ficar com humanos, não é verdade?”
Só faltava puxar e ele estaria morto. Meu braço já termia. Tentei com todas as minhas forças, mas não conseguia. Eu não conseguia fazer aquilo.
Atirei a pistola para o lado, para o chão vazio entre mim e Artur.
-Não… não consigo fazê-lo. – disse.
Ele riu-se numa gargalhada, deliciado com isto.
-Que patético! Uma vampira apaixonada por um humano!
Eu ainda fixava os olhos de José e ele os meus. Artur aproximou-se e puxou a minha cara pelo meu queixo, obrigando-me a olhar para ele.
-Não sentes o cheiro do seu sangue te chamar? Porque lhe resistes, princesa?
Mantive-me calada. Ele esperava que eu dissesse algo mas eu nada disse. O seu sorriso desapareceu e ele então largou-me.
-Hum. Se é assim, veremos se ele sente o mesmo por ti.
“Espera, como assim?”
Quando dei por ele, Artur já estava agarrado a José. Artur apenas fez com que José inclinasse a cabeça para trás e mordeu-o. José esbugalhou os olhos e na sua cara via-se agora a expressão de dor. Logo a seguir Artur deu-lhe do seu sangue e deixou-o cair no chão, como se fosse lixo. Vi o corpo de José se alterar para um corpo de vampiro, e a sua pele tornar-se ainda mais branca do que já era. Os seus olhos tornaram-se vermelhos como os meus eram agora, mas ainda mais vermelhos sangue.
-Levanta-te, minha criação. A partir de agora chamar-te-ás Secret.
“Secret? Que raio de nome! O dele é mais bonito!”
José levantou-se e olhou para ele.
-Mas se queres continuar a viver terás que fazer parte do meu clã. E para isso tê-la-ás que a matar.
Ele olhou para mim e manteve o seu olhar no meu.
-Mas… - começou ele.
-A escolha é tua.
Ele não disse mais nada, apenas mantendo o seu olhar no meu. E de repente atacou-me até me deixar quase morta no chão.
-Mata-a. – ordenou Artur.
José começou a caminhar na minha direção a passos largos, já sem o seu sorriso, mas ainda de olhar rígido. Ele abaixou-se e a sua expressão assustadora desapareceu, sendo substituído por um olhar doloroso mas ainda com a mesma essência de sempre. Ele elevou a sua mão direita, pondo-a numa posição como que para atacar. Ele abaixou-se um pouco, de modo a sussurrar-me ao ouvido.
-Desculpa… Amo-te.
E com isto, com a mão desocupada segurou-me a cara e beijou-me, e ao mesmo tempo atacou-me, enfiando a mão pelo meu corpo, agarrando o meu coração e arrancando-o.
… E foi assim que a minha vida terminou.
FIM